O papel do pesquisador no avanço da prática da pesquisa ética em EeE
Este é o primeiro artigo de uma série focada em como as partes interessadas da EeE podem atuar para o fortalecimento da prática de pesquisa ética no setor. Veja a introdução à série de artigos aqui.
Pesquisadores e investigadores de temas relacionados à educação em situações de emergência (EeE) têm um papel crucial a desempenhar na forma como seus projetos de pesquisa se envolvem com dilemas éticos. Ao trabalhar em contextos de crise e conflito, devem antecipar os desafios éticos que são complicados pelas preocupações com a segurança tanto dos pesquisadores quanto das e dos participantes, navegar por barreiras logísticas e garantir a coleta ética de dados em meio às complexidades logísticas. Também são responsáveis por estabelecer redes de colaboração com grupos de pesquisa locais, abordando os riscos atuais e futuros para o bem-estar dos participantes e o envolvimento com os sistemas de conhecimento locais.
Equilibrar essas responsabilidades de tomada de decisão com as demandas de publicações acadêmicas ou solicitações de financiamento pode ser difícil, conforme destacado nesta série de exemplos que descrevem dilemas éticos na EeE. Em muitos casos, as diretrizes existentes para a ética em pesquisa simplesmente não oferecem suporte específico para o contexto, ou podem até mesmo reforçar uma perspectiva de ética centrada no Norte Global.
Para responder a esses desafios, organizações como a UK Research and Innovation (UKRI) e o Pūtaiora Writing Group da Nova Zelândia propuseram estruturas, perguntas-chave e listas de verificação para orientar pesquisadores que trabalham em contextos de emergência sobre esses desafios. Essas diretrizes se juntam a um conjunto mais amplo de recursos de organizações como o UNICEF Innocenti, que forneceu orientações abrangentes sobre práticas de coleta de dados éticas e “amigáveis” às crianças.
Com base nesses recursos e no trabalho recente do programa ERICC, este artigo resume os temas e as recomendações recorrentes que emergem da literatura e os apresenta como questões-chave de reflexão para investigadores ao elaborarem suas pesquisas, participarem de trabalhos de campo e divulgarem os resultados da pesquisa para uma aceitação mais ampla do conhecimento produzido.
Seis considerações para pesquisadores
1. Antecipação de desafios éticos: mesmo reconhecendo que os desafios éticos em situações de emergência geralmente são inesperados, pesquisadores ainda podem antecipar e considerar preocupações com o consentimento informado, o viés de seleção ou os possíveis riscos para as e os participantes no plano de pesquisa. Dependendo do projeto, as medidas de mitigação podem variar desde a incorporação da “escuta silenciosa” como uma estratégia para neutralizar a dinâmica de poder na entrevista até a verificação do viés de seleção ao usar “intermediários” ou interlocutores locais para encontrar participantes para o estudo de pesquisa. Estruturas como as diretrizes da UKRI permitem a reflexão estruturada a partir de sete critérios principais, oferecendo um ponto de partida essencial para refletir sobre se e como o projeto de pesquisa inclui considerações éticas.
2. Apoio de colegas e reflexão estruturada: não há respostas fáceis para os dilemas éticos na pesquisa em EeE. Embora as diretrizes éticas ofereçam um ponto de partida útil, as crises evoluem e trazem consigo novos desafios metodológicos. Nesses casos, o caminho a seguir pode ser o aprendizado coletivo e a adoção da noção de responsabilidade ética culturalmente sensível além das diretrizes padronizadas. Nesse sentido, as e os académicos enfatizam que a verdadeira prática ética é dinâmica — um processo contínuo e vivo, e não uma lista de verificação única. Esse aprendizado contínuo ocorre de forma mais eficaz em espaços compartilhados, como redes de colegas, onde pesquisadores podem compartilhar suas experiências, suas reflexões, seus sucessos e seus fracassos ao lidar com desafios éticos. Ao aproveitar o conhecimento e as experiências em redes de colegas e a reflexão estruturada no processo de pesquisa, as e os pesquisadores podem construir conhecimento compartilhado, contribuir para o aprimoramento das estruturas existentes e lidar de forma mais flexível com novas situações no campo, especialmente quando pesquisadores com experiência em crises e conflitos fazem parte da conversa.
3. Colaborações genuínas de pesquisa: as e os acadêmicos do Sul Global muitas vezes ocupam posições injustas e desiguais como membros “locais” de uma parceria de pesquisa, sendo explorados como tradutores, limitados a coletores de dados e tendo que trabalhar sem os mesmos benefícios ou crédito que a equipe global. É essencial que os pesquisadores, sobretudo os do Norte Global, construam relações de trabalho sólidas e de confiança mútua com os pesquisadores das comunidades afetadas e que busquem todas as oportunidades para criar um espaço significativo e a liderança destes pesquisadores em contextos de crise. Embora as agências de financiamento tenham um papel importante a desempenhar aqui, pesquisadores têm o poder de criar o espaço para a contribuição de todos os parceiros do projeto. Isso inclui o reconhecimento formal de sua contribuição e conhecimento especializado, por meio de autoria ou não, assim como a criação de caminhos para que liderem a análise e a disseminação do produto final. Já existem diretrizes sobre o que a pesquisa coproduzida com refugiados e outras pessoas com experiência de deslocamento precisa considerar. Além disso, análises de parcerias equitativas na EeE propõem várias questões importantes para reflexão, por exemplo: “A experiência e o conhecimento estão fluindo de forma multidirecional?”; “Todos os parceiros estão dispostos a fazer uma autorreflexão e reconhecer seus respectivos privilégios e posições de poder?”.
4. Envolvimento com sistemas e contextos locais de conhecimento: com base em colaborações sólidas com parceiras e parceiros de pesquisa nas comunidades afetadas, os pesquisadores também podem situar suas pesquisas de forma mais significativa nos estudos e conhecimentos existentes para a geografia e a cultura focal. Por exemplo, como as novas pesquisas podem fazer conexões com a literatura existente no(s) idioma(s) local(is)? Como as prioridades de pesquisa poderiam ser moldadas de modo a privilegiar e responder à produção de conhecimento que já está em andamento na comunidade? Que tipos de estruturas podem permitir uma perspectiva mais ampla e inclusiva sobre o tópico da pesquisa? As diretrizes produzidas pelas comunidades que frequentemente são objeto de pesquisa, como as diretrizes Te Ara Tika, de autoria maori, podem oferecer informações valiosas sobre o desenvolvimento de processos de pesquisa que trabalhem em parceria com as estruturas culturais das comunidades afetadas, os sistemas de conhecimento existentes e a relação entre as formas de saber e o trabalho.
5. Transparência: embora pesquisadores normalmente destaquem a metodologia escolhida e as limitações no relatório final, o grau em que esses detalhes são genuinamente informativos varia de acordo com o tipo de publicação. As e os pesquisadores devem garantir que todas as informações relevantes sobre a metodologia, as parcerias, as considerações éticas, as limitações e o processo de pesquisa sejam documentadas no relatório final da pesquisa, com o máximo de clareza possível. Isso garante que o leitor possa interpretar as descobertas do estudo com mais consciência e com um enquadramento mais claro. Também vale a pena que os pesquisadores explorem como são divulgadas informações sobre seus trabalhos no início e durante todo o processo de pesquisa, especialmente para os principais interessados que trabalham no mesmo espaço. Esse tipo de compartilhamento proativo de informações pode reduzir a duplicação e incentivar colaborações úteis à medida que o projeto avança.
6. Disseminação e adesão: as e os pesquisadores devem considerar como a plataforma, o contexto e a linguagem de divulgação podem afetar pesquisadores e participantes da pesquisa que vivem no contexto afetado pela crise. Pode haver sensibilidades políticas em relação à revelação das perspectivas de alguns participantes locais, o que, por sua vez, pode comprometer sua capacidade de continuar seu trabalho educacional, bem como sua segurança e seu bem-estar. Além disso, pesquisadores poderiam explorar como as e os participantes poderiam ser envolvidos de forma mais significativa na adesão da pesquisa: os resultados poderiam ser apresentados à comunidade afetada para validação? O feedback e as reflexões dos participantes poderiam ser incluídos como parte do relatório final para oferecer aos leitores uma visão completa de como os resultados interagem com a realidade dos participantes do estudo? As descobertas poderiam ser traduzidas, compartilhadas e trabalhadas com académicos locais para promover uma colaboração académica significativa entre contextos? Os relatórios de pesquisa oferecem maneiras de usar os resultados da pesquisa na política e na prática? Há uma reflexão crítica sobre o ambiente econômico político no qual as reformas e as mudanças sugeridas estão sendo sugeridas?
Exemplo de boas práticas: transparência nos métodos e nas práticas de pesquisa
Em seu recente estudo sobre as perspectivas de jovens refugiados sobre a tecnologia educacional, o EdTech Hub e a Results for Development incluíram uma seção chamada “Dilemas e paradoxos” no relatório final. Essa seção registra comentários dos autores sobre as possíveis limitações da estrutura ocidentalocêntrica escolhida para a análise, além de reflexões sobre como a posição dos próprios pesquisadores pode influenciar o escopo da análise. Os autores também descrevem sua abordagem para trabalhar com pesquisadores com experiências na crise, bem como suas tentativas de garantir que o estudo fosse publicado e disseminado da forma mais ética possível. Eles fizeram isso compartilhando as descobertas iniciais em linguagem simples com os participantes por meio do WhatsApp (o modo de interação preferido dos participantes) e incorporando o feedback no artigo final, quando relevante.
Esta iniciativa não apenas demonstra as medidas práticas adotadas pelos autores para garantir a prática ética da pesquisa, mas também permite que o leitor tenha mais informações, conhecimento do contexto e referências para interpretar as limitações e os resultados do estudo. Os pesquisadores podem usar essas informações como um guia para o próprio trabalho, enquanto outros profissionais podem avaliar melhor se e como desejam usar as descobertas do estudo, pois têm uma visão mais clara do processo de pesquisa.
A INEE agradece aos pesquisadores mencionados neste blog, bem como ao Dr. Tejendra Pherali e ao Dr. Ritesh Shah por sua contribuição e revisão.
Este material foi financiado pelo UK International Development do governo do Reino Unido. As constatações, interpretações e conclusões aqui expressas são de inteira responsabilidade do(s) autor(es) e não refletem necessariamente as do Programa ERICC, das respectivas organizações dos autores ou das políticas oficiais do governo do Reino Unido.



