Com as próprias palavras: professores, estudantes e profissionais opinam sobre a realidade da educação em situações de emergência

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Tema(s):
Qualidade educativa
Ensino e Aprendizagem
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Advocacy

“A criatividade não é uma ferramenta de ensino. É como nós sobrevivemos.” — Professor/a, Líbano

A educação de qualidade em situações de emergência oferece proteção física, psicossocial e cognitiva que pode salvar e prolongar vidas, ao mesmo tempo em que garante oportunidades de aprendizado equitativas, inclusivas e de qualidade para pessoas de todas as idades que enfrentam situações de crise (Requisitos Mínimos da INEE para a Educação, edição de 2024). No entanto, os recentes cortes no financiamento humanitário têm colocado ainda mais crianças e jovens em risco ao limitar seu acesso a essa proteção e apoio essenciais. Esses cortes, juntamente com uma mudança preocupante no discurso humanitário, sugerindo que a educação em situações de emergências (EeE) e a proteção infantil não são componentes essenciais da preparação e da resposta a crises, sinalizam um possível afastamento dos princípios fundamentais da ação humanitária e minam a natureza universal, interdependente, indivisível e inalienável dos direitos humanos.

A Rede Interinstitucional para Educação em Situações de Emergência (INEE) é uma rede global de mais de 22.000 atores e partes interessadas em EeE, afiliados a mais de 4.000 organizações e instituições em 190 países e territórios. A INEE reconhece que os tempos estão mudando e que o setor não pode permanecer estático ou confiar em práticas ultrapassadas se quisermos defender a educação como um direito humano como parte da preparação e resposta humanitária diante das crises complexas e prolongadas que enfrentamos hoje. 

Seguindo nosso compromisso de priorizar as vozes de nossos membros, pedimos à nossa comunidade global que refletisse sobre o impacto dos recentes cortes na ajuda humanitária e na cooperação internacional, bem como que compartilhasse suas percepções sobre o que está por vir para a EeE. A seguir, apresentamos algumas das respostas, nas palavras da comunidade global. Essas declarações foram coletadas por meio da pesquisa com membros da INEE e de discussões em grupos focais realizadas nos últimos dois meses. Estendemos os nossos sinceros agradecimentos a todos os membros que contribuíram para este processo, especialmente à rede Teach For All, que co-facilitou as discussões dos grupos focais com educadoras/es e estudantes.

O que acontece quando a ajuda é interrompida subitamente?

“Devido aos recentes cortes orçamentários na ajuda humanitária, fechamos nossas portas, sem financiamento, fomos forçados a encerrar o programa de educação. Não temos nenhum subsídio do governo congolês, essa é a nossa situação.” – Membro da INEE baseado na RDC

“Estamos tentando preencher a lacuna com pequenas empresas, com contribuições da comunidade. Mas isso não é suficiente.” – ONG, Venezuela

“Embora ainda estejamos buscando oportunidades alternativas de financiamento, nossas operações e nível de apoio ao setor educacional têm sido limitados, o que não nos deixa atualmente outras opções até que haja mais progresso ou financiamento disponível.” – Membro da INEE baseado na Turquia

“Reconhecemos que as fontes de financiamento tradicionais podem ser limitadas e pretendemos identificar soluções inovadoras e orientadas para a comunidade que possam ajudar a colmatar a lacuna de financiamento.” – Membro da INEE baseado na Nigéria

Como é ensinar quando não há nada que apoie o ensino?

“Não havia livros. Não havia eletricidade. A escola estava danificada. Sem janelas, sem portas. Mas as crianças apareciam todos os dias. Fizemos jogos de tabuleiro com garrafas de bebida para ensinar frações. Não esperamos pelas condições perfeitas. Quando uma criança entra em nossa sala de aula, nós nos levantamos para atender à esperança das crianças.” – Professor/a, Líbano

“Escrevemos em um pano. Desenhamos no chão. Fazemos o que podemos com o que temos. Essa é a nossa responsabilidade, fazer o nosso melhor. Em qualquer circunstância, o mais importante é a educação. Mas não podemos lidar com isso sozinhos.” – Professor/a, Afeganistão

“Eu uso meu próprio telefone para mostrar fotos aos estudantes. Por exemplo, se você está falando com um estudante sobre uma floresta, ele não consegue imaginar uma floresta no Sahel, então nos adaptamos para usar nossos próprios recursos para transmitir a mensagem. Isso não é sustentável. Temos a disposição de ensinar, estamos motivados, temos a missão de atingir nossos objetivos.” – Professor/a, Níger

O que leva professoras e professores continuarem a trabalhar quando seus sistemas falham?

“A educação na Palestina é poder. Quando ensino os estudantes e trabalho com eles, juntos estamos mostrando resiliência e lutando para continuar a existir.” – Professor/a, Palestina

“O amor pelo meu país me faz continuar. Retribuir à comunidade que me ajudou a me tornar quem eu sou agora. O amor por meus estudantes me faz continuar. Quero mostrar a eles que são capazes e têm poder, que podem alcançar o que quer que tenham em mente.” – Professor/a, Ucrânia

“Quero que meus alunos sonhem alto, não importa qual seja sua formação. Tenho 90 estudantes em cada classe em Cox's Bazar, é difícil.” – Professor/a, Bangladesh 

“Testemunho a resiliência e o enorme potencial das crianças refugiadas todos os dias. Tento fazer da escola um espaço seguro para as crianças reconstruírem a esperança, sonharem além das fronteiras e, assim, prosperem, apesar do trauma do deslocamento.” – Professor/a, Uganda

De que estudantes precisam, além de livros didáticos e notas?

“Ensinem-nos a pensar, não apenas a memorizar. Não teremos um livro didático sobre a vida.” – Estudante, Polônia

“Não precisamos ser pressionados ou machucados – precisamos ser respeitados.” – Estudante, Uganda

“Somos todos diferentes, com objetivos diferentes, sonhos diferentes. Inspire-nos mais. Critique-nos menos. Pergunte-nos o que pensamos.” – Estudante, Zimbábue

Como deve ser de fato a localização?

“Precisamos refletir sobre o que a localização implica de forma responsável. A localização não deve significar apenas a transferência da responsabilidade financeira para a comunidade local sem lhe dar autoridade para tomar decisões. Tampouco deve significar a transferência de riscos.” – Membro da INEE baseado na Colômbia

“É necessário ter maior clareza sobre o significado de localização. Alguns atores pensam que se trata apenas de cobertura geográfica, outros acreditam que é simplesmente a transferência de fundos para os níveis local ou nacional. Mas é um processo muito mais amplo, é também uma troca de conhecimentos e capacidades, um crescimento bidirecional: aprendemos do local para o global.” – Membro da INEE baseado no Panamá

“Ministérios, escolas, comunidades, organizações locais, estudantes e o setor privado devem estar envolvidos. De preferência [...] qualquer pessoa que imponha modelos que não sejam adequados ao contexto local ou que trabalhe sem coordenação com as autoridades nacionais [deve se afastar].” – Membro da INEE baseado na Palestina 

“Um futuro 'além da ajuda' priorizaria a propriedade local, integrando a educação em agendas de desenvolvimento mais amplas. Enfatizaria soluções orientadas para a comunidade [e] distribuição equitativa de recursos...” – Membro da INEE baseado no Afeganistão

“Priorizar a localização, transferindo o poder da ONU e das organizações internacionais para as organizações locais. As organizações locais podem trazer o conhecimento de fato e a realidade no local... trazendo melhores soluções.” – Membro da INEE baseado na Somália

Qual é a mensagem que você tem para os tomadores de decisão? 

Estudantes: 

“Não tomem decisões sem nós. Nós estamos vivendo a realidade, vocês não.” – Estudante, Zimbábue

“Apoiem-nos, mas não falem por nós. Compartilhem o poder. Compartilhem as decisões. Compartilhem a confiança.” – Estudante, Índia

Professoras/es:

“Os políticos veem a educação como uma despesa. Isso é um erro. A educação é um investimento. Eu os convido a ver a educação como um investimento e não como uma despesa.” – Professor/a, Níger

“Eu gostaria de agradecer seu interesse em desenvolver nossos estudantes. Vocês precisam se concentrar em garantir que as escolas sejam espaços seguros.” – Professor/a, Palestina

“Professores sozinhos não podem carregar o peso dos desafios sistemáticos.” – Professor/a, Líbano

“Não se pode ter educação sem professores. Eles são a espinha dorsal da educação. Precisamos colocar o professor em condições adequadas, em melhores condições de vida. Isso garante uma melhor qualidade de educação para os estudantes. O Estado deve investir, os parceiros devem investir para melhorar as condições de vida e de trabalho, para que professores não sejam pobres demais para executar sua nobre missão.”  – Professor/a, Níger

“Gostaria de lembrar aos tomadores de decisão que uma escola é um centro! Sempre que ocorre um desastre, as escolas são sempre os pontos focais. Criamos centros de ciclones em nossa escola para a comunidade e recebemos refugiados em nossa escola como abrigo.” – Professor/a, Bangladesh

“Não podemos lidar com isso sozinhos. Peço àqueles que nos apoiaram que mantenham seus esforços e continuem apoiando a educação no Afeganistão. Espero que os parceiros internacionais continuem a apoiar os educadores afegãos.” – Professor/a, Afeganistão

Profissionais da educação: 

“A responsabilidade do Estado não pode ser transferida para as comunidades, mas as comunidades podem ser fortalecidas como agentes transformadores de sua própria realidade.” – Membro da INEE baseado na Bolívia

“Despolitização e descolonização da educação. A ausência de financiamento revelou a realidade da dinâmica perversa de poder por trás [do setor].” – Membro da INEE baseado na Venezuela

“Algumas entidades globais estão se adaptando e suavizando sua narrativa, com medo de causar desconforto e afetar ainda mais o financiamento. Essa mudança na narrativa implica abrir mão dos fundamentos do trabalho humanitário e é um reflexo da crise no setor. Precisamos garantir narrativas que reflitam a realidade e o que está acontecendo.” – Membro da INEE baseado na América Latina/Caribe

O que essas vozes nos dizem

Professores estão a fazer muito com quase nada. Apesar das dificuldades, estão presentes.

Estudantes pedem para serem vistos, respeitados e ouvidos.

Atores locais buscam inovar com recursos limitados e sem reconhecimento.

A educação não é uma despesa. É um investimento.

A dinâmica do poder deve mudar para que haja qualquer mudança significativa.

Vamos escutar. Vamos agir. Vamos nos posicionar junto deles.